


Em um pedaço do Cerrado onde o Rio Amambai faz a curva para dar força ao Paranazão e onde a onça (ainda) bebe água, o empresário paulista que popularizou o pão de queijo com café espresso, Marco Mammana, plantou uma semente diferente que está dando frutos: a produção de meio ambiente. Com a preservação e a recuperação da fauna e da flora de uma área de quase 5.000 hectares localizada em Itaquiraí (MS), antes uma fazenda especializada em produção de embriões de nelore, Mammana criou um negócio inédito: a venda da imagem sustentável, o marketing do meio ambiente. Sócio da Casa do Pão de Queijo e do Grupo ItalianCoffee, Mammana explica: “Eles pagam pela prestação de serviços ambientais. Eu vendo sustentabilidade para quem precisa e não sabe por onde começar.” Eles, no caso, são 12 empresas de diferentes setores, nacionais e internacionais, que compraram a ideia.
Mammana percebeu que podia fazer isso quando saiu da pecuária, há quatro anos. “Fui procurado pelo grupo InfinityBio, do Bill Gates, que tinha uma usina aqui (em Naviraí, distante 70 quilômetros de Itaquiraí). Eles queriam comprar a fazenda porque não tinham Área de Preservação Permanente (APP). Não vendi.” A decisão acendeu a luz da estratégia e ele passou de pecuarista a produtor de ecologia. Mammana investiu R$ 10 milhões em adaptações e reflorestamento com mudas de ipê, ingá, genipapo, amendoim e frutíferas em 200 hectares, trabalho considerado difícil. Segundo o técnico florestal Fabiano Shinozaki, reflorestar 1 hectare da fazenda – agora chamada GreenFarm CO²Free – com árvores nativas da região custa R$ 5 mil anuais. “Você terá esse custo em torno de seis anos”, diz Shinozaki.

A área total, preservada e reflorestada, da GreenFarm é de 4.600 hectares. As baias das vacas foram adaptadas para os animais silvestres: felinos, antas, pacas, macacos, aves e tamanduás. Os açudes viraram abrigo para jacarés apreendidos pelo Ibama. Há quatro lagoas de multiplicação de peixes, como pacu e piauçu, e um banco de germoplasma de espécies de árvores do Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal (a propriedade está em uma área de confluência dos três biomas). E há câmeras, muitas delas. “As imagens são transmitidas pela internet, por meio dos sites das empresas investidoras”, explica o diretor executivo da GreenFarm, Marcelo Carneiro Mammana. “É possível ver como e onde aquela empresa está investindo. Ela pode mostrar isso para o mundo inteiro se quiser.”
O reality show ecológico é o que sustenta o empreendimento. Investidores pagam mensalmente por cotas que vão de 4 a 1.300 hectares e valores entre R$ 3 mil e R$ 175 mil. Esses espaços são alugados a partir de coordenadas geodésicas que podem ser vistas pelo Google Earth (imagens via satélite transmitidas pela internet) e os créditos de carbono gerados pela mata e a filtragem de água promovida nos 33 quilômetros de matas ciliares estão registrados na plataforma de negócios como Bens e Serviços Ambientais e Ecossistemas de Mato Grosso (PNBSAE/MT). A fazenda é um projeto privado, com custo mensal em torno de R$ 200 mil, mas vem sendo usada como apoio a entidades estatais como o Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Cras). “A sede do Cras em Campo Grande está com a capacidade esgotada. Recebemos milhares de pássaros por semana, onças, jacarés, fruto da fiscalização contra o tráfico de animais”, diz o coordenador da entidade, Elcio Borges. “Em cinco meses usando a GreenFarm, conseguimos reintroduzir na natureza 203 animais. Na capital, é difícil termos solturas”, diz ele.
Por enquanto, é Mammana e os sócios que mantêm duas onças-pardas, três antas, gatos selvagens, um macaco-prego, um tamanduá-bandeira e um jaburu que jamais voltarão a viver na mata. As onças estão com parte da pelagem queimada, o macaco só tem um braço e o jaburu só uma asa. Os filhotes Nina, uma tamanduá-bandeira de cinco meses, e Tufão, uma anta, são órfãos e ainda bebem leite na mamadeira. “Estamos tentando o acasalamento das antas e dos gatos-moriscos para soltarmos os filhotes na mata, a fim de aumentar a população desses animais, que estão em extinção, e também a multiplicação de pacas, uma presa dos felinos de grande porte”, explica o veterinário da fazenda, Luiz Samartano. “As onças já estão invadindo as cidades à procura de alimentos.”
